A neurociência mora na Psicanálise.

         Há alguns dias vi um vídeo do psicanalista Christian Dunker sobre Neuropsicanálise, no qual ele afirmava que "o que vem se achando em neurociência não contradiz o que esse método prático (a psicanálise) presume e executa”. Isso me chamou a atenção e ficou martelando na minha cabeça. Em 2021, tive a oportunidade de fazer um curso online, pela USP, sobre neurociência e aprendizagens, por isso, algumas coisas eram um tanto evidentes, como, por exemplo, a preocupação de Freud com fatos ocorridos na infância e como isso o impactam na vida adulta, bem como o fato da neurociência defender uma educação positiva para evitar traumas no ser humano em formação. Porém, no final de 2022, descobri que há ainda mais por trás dessa reação entre psicanálise e neurociência a partir da leitura do livro O cérebro da criança, de Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson. 

O livro traz, entre outras coisas, estratégias para ajudarmos as crianças a lidarem com suas emoções e percepções do mundo durante seu desenvolvimento. Ao longo do livro, há a menção de que podemos evitar diversos traumas da infância caso  deixemos as crianças falar, contar e recontar inúmeras vezes o que lhe aconteceu - como em caso de algum acidente, por exemplo. Além disso, os autores afirmam que, se for encorajada a esquecer o evento - ou seja, se não a deixarmos falar sobre - isso pode voltar mais tarde por meio de sintomas que ela não consegue compreender e nem sabe como resolver. Ou seja, os neurocientistas perceberam a importância de se contar uma história sobre si mesmo para entender seus traumas, medos, angústias. 

Além disso, o livro também fala da importância como ouvimos essas histórias e questionamos sobre os fatos, com questões que os levem a compreender o que e porque estão se sentindo de tal forma. Essa foi a sacada que Sigmund Freud, o pai da psicanálise, teve ao tratar sua paciente, Emmy Von N.* Falar, contar de forma livre e solta são métodos para aprender a lidar com os sentimentos, compreende-se sobre si mesmo enquanto faz a narrativa para o outro. E o psicanalista é aquele que, não apenas escuta a história, mas traz também questionamentos ao narrador, o fazendo compreender sua própria narrativa - mesmo que ela não pareça fazer sentido.

E finalizo indicando a pais, mães, professores e cuidadores em geral que leiam “O cérebro da criança”, pois há ali ótimas ferramentas para que possamos lidar melhor com esses seres que ainda estão em desenvolvimento. 


*Para saber mais sobre o início da psicanálise, recomendo a leitura de Estudos sobre a histeria, de Sigmund Freud. 

Outro texto muito bom que relata sobre o início da psicanálise é “A cura pela Fala", de Waleska Pessato Farenzena Fochesatto - link: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372011000300016 


Vídeo de Duker sobre Neuropsicanálise: Neuropsicanálise e psicanálise | Christian Dunker | Falando nIsso 124



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